O que Seis Anos a Cuidar de Mães Me Ensinaram sobre o Pós-Parto
Há uma coisa que vejo muitas vezes quando vou a casa de uma mãe poucos dias depois de ela ter tido um bebé.
Ela está de pé.
A arrumar qualquer coisa. A organizar a roupa do bebé. A limpar a cozinha. A tratar de coisas.
E eu penso: mas ela acabou de ter um bebé.
Às vezes passaram três dias. Três.
E ela está ali, de pé, a fazer coisas como se o corpo não tivesse acabado de passar por uma das experiências mais intensas que existem.
E eu entendo. Porque também sou mãe. Sei aquela sensação de ter um bebé e, de repente, existir uma quantidade absurda de coisas para fazer. O bebé precisa de ser alimentado, mudado, embalado, é preciso perceber se está tudo bem. É preciso comer, ir à casa de banho, responder às mensagens, receber pessoas. E, no meio disto tudo, o corpo está a recuperar de um parto. Pode estar a recuperar de uma cesariana. Está a perder sangue, a produzir leite, a dormir aos bocados e a passar por uma enorme mudança hormonal.
E mesmo assim há mães que, três dias depois, estão a tentar pôr a casa em ordem.
Para mim, muitas vezes, isto é um sistema nervoso em modo de sobrevivência.
Durante a gravidez, o corpo da mulher já está a preparar-se para tudo isto. A placenta produz CRH, uma hormona envolvida na resposta ao stress, e os níveis de cortisol materno aumentam significativamente ao longo da gravidez, podendo chegar a duas ou três vezes os níveis de uma mulher que não está grávida. É parte da preparação do corpo.
Depois chega o parto e temos um verdadeiro cocktail de hormonas. Adrenalina, cortisol, oxitocina, endorfinas. É quase um shot de energia para fazer aquilo que tem de ser feito.
E conseguimos.
Conseguimos parir, conseguimos levantar-nos, conseguimos cuidar do bebé, conseguimos fazer coisas que em qualquer outro momento talvez não conseguíssemos.
O problema é quando continuamos a funcionar assim depois de o bebé nascer.
Porque o bebé nasceu, mas a demanda não acabou. Na verdade, acabou de começar.
Um recém-nascido precisa da mãe praticamente para tudo. Muitas vezes de duas em duas horas. Há alimentação, amamentação, noites interrompidas, choro, colo, recuperação física, dores, hormonas a mudar, uma casa, uma relação, outros filhos e uma mulher a tentar perceber quem é agora.
É muita coisa.
E acho que é muito fácil uma mãe perder-se neste ritmo do quotidiano e nem perceber que está em modo de sobrevivência.
Ela continua a fazer.
Continua a responder.
Continua a organizar.
Continua a receber pessoas.
Continua a tratar da casa.
Continua a dizer que está bem.
E depois temos aquilo que eu gosto de chamar de wired but tired.
Completamente cansada, mas ligada.
O corpo quer parar, mas qualquer coisa dentro dela continua em alerta. Deita-se e não consegue dormir. O bebé finalmente adormeceu e ela continua acordada. O mais pequeno barulho faz com que se levante. O coração acelera. A cabeça não pára. Está sempre a antecipar a próxima necessidade do bebé.
E não adianta dizer simplesmente: “Vai dormir.”
Ela sabe.
Ela quer.
Mas talvez não consiga.
Porque um sistema nervoso em sobrevivência não recebe uma ordem e desliga.
Primeiro tem de se sentir seguro.
E é aqui que acho que temos de começar a olhar para o pós-parto de uma forma diferente.
Porque muitas vezes esperamos pelo crash.
O bebé começa a dormir melhor. Há mais horas seguidas de sono. Começam os sólidos. Há mais previsibilidade. Alguma coisa muda e o sistema nervoso começa finalmente a perceber que talvez a emergência esteja a acabar.
E é aí que algumas mães desabam.
“Agora é que eu estou péssima. Agora que ele está a dormir melhor.”
Pode acontecer aos três meses, aos seis, ou muito mais tarde. Não existe um momento exacto e não acontece a todas as mulheres. Mas vejo este padrão vezes suficientes para saber que não quero esperar por ele.
Porque durante meses aquela mãe esteve a funcionar com o corpo em alerta. E quando finalmente existe espaço para baixar a guarda, pode aparecer tudo aquilo que estava por baixo. O cansaço. A fome. A ansiedade. A irritabilidade. O choro. A sensação de que já não consegue mais.
É quase como se o corpo dissesse: “Ok. Agora talvez estejamos seguros. Agora podemos parar.”
E então vem a queda.
Por isso, quando vou a uma casa e vejo uma mãe que acabou de ter um bebé e que está a tentar fazer tudo, não penso que ela precisa de aprender a descansar.
Penso que ela precisa de ser cuidada.
Porque há uma diferença enorme.
Não podemos simplesmente dizer a uma mãe em modo de sobrevivência para ir dormir. Primeiro é preciso criar as condições para que o corpo consiga, lentamente, sair desse estado.
Pode ser uma massagem. Um escalda-pés. Uma compressa quente. Um banho. Uma refeição quente, nutritiva e adequada àquele momento.
Uma casa tranquila. Pouca luz. Alguém que pega no bebé. Alguém que lava a loiça. Alguém que não lhe pede mais nada.
Alguém que simplesmente está.
E é isto que fazemos na Tree of Life.
Não é chegar a uma casa, fazer algumas coisas durante algumas horas e ir embora.
É o cuidado ao longo de vários dias.
Sete, oito, dez dias.
Porque é na repetição que começa a acontecer qualquer coisa.
A mãe come. Recebe. Descansa. É tocada. É aquecida. É ouvida. Tem alguém ali.
E, pouco a pouco, o corpo começa a perceber que não está sozinha. Que não precisa de estar sempre alerta. Que pode receber, fechar os olhos, respirar.
E quando o corpo começa a sentir-se seguro, aparece espaço para outra coisa.
Para olhar para o bebé.
Para o sentir.
Para reparar nele.
Para conhecê-lo.
Para estar simplesmente com ele.
Um sistema nervoso em sobrevivência tem menos espaço para entrega. Não porque a mãe ame menos. Nunca é isso. Mas porque está ocupada a sobreviver.
Um sistema nervoso que se sente seguro tem espaço para presença, para vínculo, para curiosidade, para prazer, para amor.
E é por isso que não quero esperar que uma mãe esteja completamente destruída para começar a cuidar dela.
Quero começar nos primeiros dias.
Quando ela ainda está a dizer:
“Eu consigo.”
E poder responder:
“Eu sei que consegues. Mas não precisas.”
Porque o seu bebé acabou de nascer.
E ela também.
As primeiras semanas não são para provar o que uma mãe consegue fazer. São para recuperar, ser cuidada e, pouco a pouco, sair desse estado de alerta constante.
É esse espaço que queremos proteger na Tree of Life.
Nourish. Restore. Receive. 🤍
Nota: Este artigo é informativo e não substitui acompanhamento médico ou psicológico. Se uma mãe estiver a experienciar ansiedade intensa, tristeza persistente, sintomas traumáticos, insónia importante ou outros sintomas que a preocupem, deve procurar apoio profissional especializado em saúde perinatal.